sábado, 20 de dezembro de 2025

Negociar

 

Já sabemos o quão importante é negociar os termos dos contratos celebrados com os nossos fornecedores. Isto deve acontecer nas empresas e relativamente aos contratos negociados na nossa esfera pessoal.

 

Nos últimos dias, na data da renovação de um seguro automóvel, telefonei para a seguradora, mostrando o descontentamento com o preço cobrado (como se trata de um seguro com o débito direto associado, o dinheiro já tinha sido debitado da minha conta). A operadora, após analisar as condições do meu contrato, disse que o preço cobrado era o mais baixo e não era possível reduzir o valor. Disse-lhe que iria solicitar a revogação do débito direto e contratar o seguro noutra seguradora, assegurando-lhe que tinha propostas muito mais baixas noutras seguradoras (na verdade, ainda não fizera nenhuma simulação). Após desligar, fiz algumas simulações noutras seguradoras (através dos respetivos sítios na internet), tendo a seguir contactado a que tinha o preço mais baixo (para garantias semelhantes). O operador, depois de alguma insistência da minha parte para conseguir o melhor preço possível, propôs-me um prémio inferior em 50 €, relativamente ao que pagava. Solicitei-lhe que me contactasse no dia seguinte, para que lhe desse uma resposta acerca da alteração ou não de seguradora.

 

Nesse mesmo dia, liguei novamente para a minha seguradora e disse-lhe que iria dar-lhe uma última oportunidade de me manter como cliente. Referi que tinha uma simulação de outra seguradora muito mais baixa (e com as mesmas condições) e, por isso, se não conseguissem um preço mais baixo, iria revogar o débito direto e anular o contrato. Após algum tempo de análise, a operadora diz que o melhor preço ficava mais de cem euros abaixo do que tinha sido debitado (mantendo as condições) e que, caso aceitasse o novo valor, a seguradora restituiria a diferença nos dias seguintes. Naturalmente, continuei cliente da mesma seguradora e recebi mais de 100 € na conta.

sábado, 6 de dezembro de 2025

Mais casas para arrendar

 

Estamos numa altura em que faltam casas para arrendar. Conforme já escrevi algumas vezes, isto ocorre porque a procura é superior à oferta (há mais pessoas à procura de casa para arrendar do que casas disponíveis no mercado). Essencialmente, os proprietários que põem uma casa no mercado de arrendamento esperam receber o valor negociado, que a casa não seja estragada pelos arrendatários e que haja estabilidade das políticas e das leis que regulam o arrendamento. Além de mais construção, os governos que quiserem melhorar o mercado de arrendamento terão de garantir estes três pilares essenciais.

Quando um inquilino deixa de pagar a renda, o despejo tem de ser quase imediato. Caso o Estado considere que determinada família deva ser apoiada, então pode pagar temporariamente a renda do inquilino que deixa de ter condições financeiras para o fazer ou acolhê-lo numa habitação da Segurança Social preparada para o efeito. Este é um dos principais problemas que mais obstam à oferta de casas no mercado. Todos conhecem casos de inquilinos que deixaram de pagar as rendas e os despejos arrastaram-se meses ou anos.

Outra preocupação constante dos senhorios está relacionada com as condições das casas depois da saída dos inquilinos. Conheço algumas situações de casas que ficaram completamente irreconhecíveis depois da saída do inquilino, em que o senhorio teve de investir alguns milhares de euros para restaurar a casa para as condições anteriores. Um sistema que pretenda incentivar a oferta de casas no mercado de arrendamento terá de punir severamente os inquilinos que entregarem as casas em condições degradantes ao senhorio.

Por último, os proprietários apenas sentirão vontade de investir no mercado de arrendamento se lhes for garantido que os políticos manterão relativamente estáveis as políticas e as regras do mercado de arrendamento. Nenhum proprietário investirá, a longo prazo, num mercado em que as regras mudam frequentemente e, muitas vezes, de forma tão oscilante.

sábado, 29 de novembro de 2025

Saldo da Segurança Social

 

A sustentabilidade da Segurança Social é um tema empolgante e fraturante, que divide muito as opiniões dos economistas (e dos portugueses, em geral). Muitos consideram que o sistema está bem e recomenda-se. Os saldos positivos obtidos nos últimos anos contribuem para desvalorizar os que teimam em falar na insustentabilidade da Segurança Social. 

O que significa dizer que a Segurança Social é sustentável? A Segurança Social tem receitas (contribuições das pessoas e das empresas, transferências do Estado, entre outras) e despesas (pensões, prestações sociais, subsídios, entre outros). O saldo da Segurança Social corresponde à diferença entre as receitas e as despesas. Nos últimos anos, o saldo da Segurança Social tem registado excedentes (receitas superiores às despesas), gerando um sentimento positivo de que não há razões para alarme.

Uma parte muito significativa das receitas da Segurança Social (mais de 25%) diz respeito a transferências correntes (do Orçamento do Estado e de outras entidades) e a receitas fiscais canalizadas para o orçamento da Segurança Social. Ou seja, se excluirmos estas receitas da Segurança Social, o excedente, que tem sido positivo nos últimos anos, transforma-se em défice.

Quando falamos na sustentabilidade da Segurança Social temos de perceber se estamos disponíveis para reforçar as transferências provenientes do Orçamento do Estado (que representam receitas de outros impostos ou taxas) para garantir que as despesas são suportadas ou se consideramos apenas as receitas das contribuições. Se excluirmos as receitas provenientes do Orçamento do Estado, não obstante o aumento recente das contribuições (devido ao aumento da população ativa), atualmente as receitas já não cobrem as despesas.

terça-feira, 25 de novembro de 2025

Oferta de casas

 

Conforme tenho referido, a falta de casas para arrendar apenas se resolve com mais oferta. Em Portugal, depois de um período em que se construíram mais de 100 000 casas por ano (entre os últimos anos do século XX e os primeiros anos do século XXI), a construção anual de fogos diminuiu até 2015, ano em que se construíram menos de 10 000 fogos. Depois disso, o número de casas construídas por ano aumentou paulatinamente, mas o número anual de fogos ainda é muito baixo (inferior a 30 000 por ano).

Os políticos, muitas vezes por razões meramente ideológicas, têm identificado algumas medidas, sendo que os limites às rendas são cada vez mais referidos como uma solução para o problema. Há muito que a realidade demonstrou a insensatez de uma medida desta natureza. O único benefício associado à limitação das rendas prende-se com a descida que os atuais inquilinos poderiam observar nos valores que pagam. Rapidamente, a oferta de casas para arrendar diminuiria e não haveria novas casas disponíveis para arrendar. Tem sido sempre assim que a oferta reage à imposição de tetos nas rendas.

Os mesmos políticos têm referido, frequentemente, que há países em que foram impostos limites nas rendas. Se é verdade que alguns países têm adotado modelos que restringem o valor das rendas (na maior parte dos casos, não se trata de uma limitação pura e dura, mas de um sistema semirrígido), o sucesso apenas é visível quando a oferta pública aumenta — em muitos desses países (Singapura, Holanda, Finlândia, entre outros), a oferta pública e social tem aumentado muito e representa mais de metade dos fogos destinados à habitação. Ou seja, a oferta pública e social, sendo robusta, não só disponibiliza casas à maioria da população, como concorre com a oferta privada, obrigando-a a baixar o preço das rendas. Neste caso, os governos daqueles países não resolveram penalizar os proprietários privados, mas decidiram construir casas para as suas populações e concorrer com eles. Enquanto a ideologia e o populismo se sobrepuserem à ciência, o problema da habitação não será resolvido.

terça-feira, 18 de novembro de 2025

Casas construídas

 

Ontem, o Jornal de Notícias noticiava que o “recorde de casas construídas no Porto não faz baixar preços”. O preço de um bem é um nivelador da oferta e da procura. Se o preço de um bem subir, a procura diminuirá e a oferta aumentará. Pelo contrário, a diminuição do preço de um bem implicará um aumento da procura desse bem e uma diminuição da oferta. Em suma, os produtores e os consumidores reagem ao preço dos bens produzindo mais ou menos e comprando mais ou menos, respetivamente.

No setor da habitação, o aumento do preço das casas (e das rendas) provocou um aumento da construção de casas (ou seja, da quantidade oferecida) — antes disso, o aumento da procura provocara o aumento dos preços das casas e das rendas das casas para habitação. Foi o aumento dos preços das casas e das rendas que avisou os construtores para a necessidade de construir mais; o preço é determinado pela interação entre a procura e a oferta.

O aumento dos preços das casas e das rendas contribui para que a rentabilidade esperada dos construtores aumente e, por isso, eles decidam construir mais casas. Quando o número novas de casas construídas (ou remodeladas/reconstruídas) ultrapassar a procura, os preços baixarão. Se o número de casas construídas não fizer baixar os preços, é porque a procura ainda é superior à oferta.

Depois de o número de novas casas construídas ter diminuído drasticamente entre 2002 e 2015, nos últimos anos temos assistido a uma recuperação ténue. Atualmente, o número de casas construídas ainda é muito baixo relativamente à procura, não sendo suficiente para estabilizar e/ou baixar o preço.

sábado, 8 de novembro de 2025

Grandes empresas ao poder...

 

Portugal necessita de muitas empresas, sejam elas micro, pequenas, médias ou grandes. Existe uma perspetiva cultural de defesa das micro e pequenas empresas, sendo que os políticos tendem a castigar mais as que não se enquadram naquela visão. Além do desapego ideológico de alguns partidos e comentadores mediáticos pelas grandes empresas, os diversos governos têm optado por implementar um conjunto de medidas (fiscais, laborais, etc.) que as penalizam.

Em termos de IRC (Imposto sobre o Rendimento das Pessoas Coletivas), não só as pequenas e médias empresas (PME) podem gozar de uma taxa mais baixa, como há taxas especiais aplicadas às grandes empresas que podem elevar a taxa de IRC acima dos 30%.

No entanto, estes factos merecem ser contrastados com os salários pagos pelas PME e pelas grandes empresas. Os dados comprovam que as grandes empresas pagam melhor aos trabalhadores (https://planapp.gov.pt/wp-content/uploads/2023/01/Nota-de-Analise_Os-salarios-em-Portugal.pdf), pelo que não deveriam ser tratadas de forma discriminatória, mas, pelo contrário, deveriam ser estimuladas.

As empresas nascem pequenas e, se conseguirem convencer, através dos produtos e serviços que oferecem, as pessoas a adquiri-los, poderão crescer e tornar-se grandes. Uma empresa, seja micro, pequena, média ou grande, já serve o seu país através do emprego que gera, dos impostos que paga, do bem-estar social que promove através da satisfação das necessidades das populações, etc. Penalizar uma empresa somente porque cresceu mais do que a maioria, mesmo sabendo que aquele tipo de empresa, em média, remunera melhor os seus funcionários do que as restantes, é claramente errado.  

sexta-feira, 7 de novembro de 2025

O dinheiro traz felicidade

 

Há um ditado popular que diz “o dinheiro não traz felicidade”. Não há nenhum fator universal que, isoladamente, implique felicidade. A felicidade depende de muitos fatores e cada pessoa avalia cada um deles de forma diferente. Para determinado indivíduo, o dinheiro pode ser um fator muito importante para se sentir feliz; para outro, pode ter pouca ou nenhuma importância.

O PIB per capita é dos indicadores económicos mais utilizados para medir a riqueza de um país, sendo determinado através da divisão do PIB pela população de um país ou região. Apesar das limitações associadas ao PIB per capita (é um valor médio, que ignora as diferenças entre os indivíduos…) e dos cuidados que devemos ter na sua utilização, trata-se de um indicador inultrapassável quando se pretende medir o nível de riqueza e está associado a um conjunto muito elevado de outros indicadores.

Há vários estudos que avaliam a felicidade dos povos, sendo possível observar os países mais felizes e menos felizes. Se analisarmos o PIB per capita e o nível de felicidade obtidos, facilmente verificamos que há uma correlação forte entre os dois indicadores (alguns estudos apontam para uma correlação estatística de, aproximadamente, 0,7). Ou seja, as populações dos países com PIB per capita superior apresentam níveis de felicidade superiores.

segunda-feira, 27 de outubro de 2025

Habitação e construção

 

O problema da falta de habitação em Portugal é dos que mais atraem a atenção dos políticos e dos meios de comunicação social. Apesar de persistir há alguns anos, ainda não foram tomadas medidas significativas que o permitam resolver. Pior, os políticos executivos ainda não foram capazes de identificar as verdadeiras causas da sua existência, pelo que as ações tomadas dificilmente alcançarão os objetivos desejados.

A falta de habitação existe porque o aumento da procura é superior ao aumento da oferta. Sobre isto não deve haver nenhuma dúvida. É claro que temos visto jornalistas, comentadores e políticos a duvidar do óbvio. Enquanto nos entretivermos a discutir o que pouco interessa para o assunto, a falta de habitação será cada vez mais frequente. Ainda hoje, o jornal Público traz esta notícia em manchete: “Preços das casas sobem mais em zonas com maior aumento da construção”. Ao ler o resto da capa do jornal dedicada ao assunto fico logo a perceber que o título serve de entrada para mais um conjunto de propostas absurdas, com origens ideológicas e que apenas serviriam para agravar o problema. Se os preços das casas crescem mais em zonas com maior aumento da construção é porque o aumento da procura, nessas zonas, cresce ainda mais. Não é necessário penalizar os que têm casas vazias; é necessário criar medidas que incentivem os que têm casas vazias a pô-las no mercado. Se olharem para o problema da falta de casas para habitação como um problema económico, mais facilmente conseguirão resolvê-lo.

domingo, 24 de agosto de 2025

Incoerências

 

Com o intuito de reduzir o consumo, o governo tributa severamente o consumo de tabaco; para as pessoas adquirirem outros bens mais amigos do ambiente, o governo implementa uma taxa sobre os sacos plásticos; para penalizar os que compram automóveis com elevados consumos de combustíveis fósseis, o Imposto sobre Veículos é mais elevado nos automóveis mais poluentes; para os proprietários manterem as casas em bom estado e habitadas, o governo agrava o Imposto Municipal sobre Imóveis (IMI) dos prédios devolutos.

Além destes, há inúmeros exemplos de impostos ou taxas que são criados ou agravados para diminuir o consumo ou penalizar os contribuintes, orientando-os para determinada direção. Não há dúvidas de que os impostos são usados pelos governos para alcançar objetivos específicos (excluo desta análise os objetivos puramente orçamentais).

Paradoxalmente, muitas das pessoas que são favoráveis à utilização dos impostos para alcançar objetivos específicos estratégicos (como os identificados acima), consideram que uma taxa de imposto sobre as empresas (Imposto sobre o Rendimento das Pessoas Coletivas — IRC) elevada não tem nenhum efeito na atração e manutenção de empresas. Quando o imposto sobre o rendimento das pessoas (singulares ou coletivas) penaliza exageradamente os que trabalham mais ou os que são mais produtivos (as empresas com maiores lucros), o resultado só pode redundar no seu afastamento. O caso das empresas é ainda mais pernicioso, dado que o IRC penaliza as empresas maiores e mais produtivas, sendo as que conseguem pagar mais aos trabalhadores e as que poderiam contribuir mais para que a economia portuguesa se transformasse. 

terça-feira, 12 de agosto de 2025

Implicatura

 

Muitas vezes, o falante utiliza determinadas palavras pretendendo dar-lhes um sentido diferente do que está explícito. Ademais, por variados fatores (falta de tempo, desconhecimento do verdadeiro sentido das palavras, regionalismos, entre outras causas), nem sempre as palavras utilizadas são as mais adequadas.

Na oralidade, a utilização de palavras inadequadas ou com sentido implícito para além do sentido literal é mais frequente, dado que a necessidade de escolher e articular as palavras num período curto é mais difícil e, por isso, a probabilidade de errar é maior.  

Na comunicação social vive-se um momento muito especial. Os políticos, comentadores e analistas que, todos os dias, se acotovelam mutuamente para conseguirem passar a sua mensagem, entretêm-se a discutir uma palavra ou uma frase propalada por um dos intervenientes (ou por terceiros), acusando-o de um crime qualquer porque o sentido literal da mesma difere do sentido que o autor lhe atribuiu ou quis atribuir. Pior, depois de o autor explicar o sentido desejado, o oponente insiste em acusar o outro falante porque o sentido implícito da palavra ou frase não é (ou não se pretende que seja) aquele. Em vez de se discutir os assuntos seriamente, o tempo de antena é passado a arranjar factos alternativos e a acusar os outros de posições que, muitas vezes, são erradas.

sábado, 9 de agosto de 2025

Nem para cabaneiros servem

 

O meu pai utilizava muitas vezes a palavra “cabaneiro”, quando pretendia referir-se a alguém que não percebe muito da arte agrícola. O meu pai sempre trabalhou na agricultura, sendo um pequeno produtor de gado, vinho, milho, feijão e batatas, entre outros, pelo que tinha conhecimento das melhores técnicas utilizadas na produção de bens agrícolas.

O termo cabaneiro pode ter vários significados. Entre outras aceções, o cabaneiro é uma pessoa pobre que vive em cabana; também pode ser um trabalhador rural ou um jornaleiro. O meu pai utilizava o termo cabaneiro pejorativamente, pretendendo mostrar que se trata de alguém que, não sendo proprietário nem lavrador (apesar de, muitas vezes, ajudar outros a trabalhar a terra, necessitava de alguém mais experimentado que o orientasse), percebia pouco da arte.

Atualmente, os órgãos de comunicação social estão repletos de pessoas que comentam tudo com aparente propriedade. Na verdade, muitas vezes, trata-se de pessoas pouco rigorosas nos assuntos que tratam e desprovidas de vergonha.

domingo, 3 de agosto de 2025

Contias

 

Conforme o dicionário Priberam da Língua Portuguesa, contia é a “Retribuição dada pelo monarca a alguns dos que o serviam no paço ou na guerra.”

Em Portugal, nos séculos XIV e XV, havia vassalos a receber um rendimento da Coroa, em dinheiro ou em espécie, que podia ser fixo ou em determinados momentos (por exemplo, no casamento). As contias entregues eram a contrapartida dos serviços prestados ou a prestar ao Rei. Em muitos casos, os vassalos eram obrigados a possuir, por exemplo, determinado número de cavalos ou armas, para poderem ser usados na proteção do reino sempre que fosse necessário.

domingo, 13 de julho de 2025

Leis do Milho

 

Agora que o debate sobre a imposição de tarifas aos bens importados continua na ordem do dia, vale a pena relembrar as Leis do Milho, executadas na Inglaterra no século XIX. Naquela altura, depois das guerras napoleónicas, para proteger os seus agricultores, a Inglaterra introduziu tarifas ao milho importado.

À semelhança do que acontece atualmente, a introdução de tarifas aos bens importados gerou enorme controvérsia. Os defensores das tarifas argumentavam ser necessário proteger os produtores locais de milho e que o país deveria tornar-se autossuficiente. Do lado oposto, criticava-se o encarecimento do milho (que penalizava de forma mais severa os mais pobres) e o prejuízo causado no comércio internacional. David Ricardo foi um dos que mais criticaram as Leis do Milho, por considerar que o comércio internacional trazia mais benefícios do que o protecionismo comercial.

Já naquela altura, à semelhança do que acontece atualmente, a introdução de tarifas aos bens importados, visando incentivar a produção interna e auxiliar as empresas nacionais, é tema muito controverso.

quinta-feira, 3 de julho de 2025

Lei de Benford

 

A título de exemplo, imagine que decide consultar as populações de todos os países mundiais, ou de todas as freguesias portuguesas, e verificar qual é o primeiro algarismo que aparece mais vezes. Em princípio, poderá pensar que todos os algarismos, entre 1 e 9, têm igual probabilidade de aparecer (11,11%).

A lei de Benford diz-nos que a probabilidade de o primeiro algarismo ser 1 é maior do que ser o 2; e a probabilidade de este ser o primeiro algarismo é maior do que a probabilidade de ser 3, a assim sucessivamente. As diferenças entre a probabilidade de aparecer determinado algarismo e o algarismo seguinte são significativas — a probabilidade de aparecer o 1 é cerca de 30%, enquanto a probabilidade de encontrar o algarismo 2 é cerca de 18%.

Apesar de, aparentemente, parecer contraintuitiva, a lei de Benford está presente em muitas situações do quotidiano. Esta lei é muito importante e pode ser usada em muitas áreas, como, por exemplo, em auditoria e na identificação de fraudes financeiras ou fiscais. Se, numa dada declaração fiscal houver discrepância entre os dados declarados e a lei de Benford, pode ser um indício de que algo não está correto.

No entanto, convém ressalvar que a lei de Benford aplica-se mais eficazmente a dados que têm várias ordens de magnitude (por exemplo, números de conta construídos sequencialmente à medida que surgem novos clientes) e não se aplica quando há intervenção humana na atribuição dos números, quando há restrições no conjunto de dados (por exemplo, se os números de telemóvel iniciam todos pelo algarismo 9) ou quando os dados são gerados de forma aleatória (por exemplo, no lançamento de dados ou nos números da lotaria).    

Há uma série transmitida pela Netflix, a Era dos Dados, que mostra um conjunto de situações em que se aplica a lei de Benford.

terça-feira, 1 de julho de 2025

Suposições

 

Nos últimos dias temos visto algumas notícias sobre a suposta fragilidade da economia russa. Desde que a Rússia invadiu a Ucrânia, e perante muitas adversidades (por exemplo, sanções impostas por outros países), vários analistas afirmam convictamente que a economia russa é pujante e como está baseada na indústria da guerra não será afetada.

Apesar de a Rússia ter diversificado os seus mercados de petróleo e gás vendendo bastante mais para alguns países, conseguindo assim reduzir as consequências das sanções impostas, não acredito que um período tão longo de guerra não provoque danos significativos na economia russa. Como em tudo na Rússia, os números apresentados poderão esconder a realidade e só mais tarde é que poderemos conhecer a verdadeira situação.  

sexta-feira, 27 de junho de 2025

Armas nucleares do Irão

 

Não sou especialista nem tenho qualificações na área, mas gostaria de abordar o tema das armas nucleares do Irão sob um ponto de vista que não tenho visto nas abordagens feitas pelos órgãos de comunicação social.

Depois de um período em que alguns países começaram a desenvolver armas nucleares (as bombas nucleares foram usadas pela primeira vez na Segunda Guerra Mundial — Hiroshima e Nagasaki), pondo em risco a própria sobrevivência humana, foi assinado um tratado, designado de tratado de não proliferação de armas nucleares. Os países que aderiram ao tratado comprometem-se a não desenvolver armas nucleares, sendo que os já têm armas nucleares responsabilizam-se por defender os restantes caso sejam atacados por um dos que têm armas nucleares. Atualmente, o tratado de não proliferação nuclear está assinado pela esmagadora maioria dos países mundiais (incluindo o Irão); são poucos os países que não assinaram o tratado de não proliferação nuclear — como, por exemplo, Israel, Índia, Paquistão ou Coreia do Norte (que assinou, mas saiu mais tarde). 

Os países que assinaram o tratado estão sujeitos a frequentes ações de fiscalização por parte da Agência Internacional de Energia Atómica (AIEA). Nessas visitas ao Irão, a AIEA já encontrou várias irregularidades: valores de urânio acima do permitido; não explicação da origem de vestígios de urânio encontrados em locais que não tinham sido declarados; etc. Estes e outros factos implicam que o Irão não está a cumprir o tratado e que há situações pouco claras e mal explicadas no programa nuclear do Irão.

O Irão pode sair do tratado (como fez a Coreia do Norte) e seguir o seu caminho desenvolvendo o programa nuclear que entender. Provavelmente, no dia em que isso acontecer, outros países da região (por exemplo, Arábia Saudita, Turquia ou Egipto) irão fazer o mesmo e desenvolver o seu programa nuclear. O que me parece estar a acontecer é que o Irão quer transmitir a ideia de que não pretende desenvolver armas nucleares (por isso não sai do tratado), mas simultaneamente sonega informação importante à Agência Internacional de Energia Atómica.

Se o Irão vier a ter armas nucleares, o Médio Oriente (e o Mundo) ficará ainda mais perigoso, visto que se trata de uma região muito instável e com conflitos constantes. Lembremo-nos de que em Teerão há um relógio que marca o fim do Estado de Israel (o relógio faz uma contagem decrescente para o fim do Estado de Israel, no ano de 2040) — tendo em conta as notícias recentes, Israel terá destruído este relógio num dos últimos ataques feitos à capital do Irão.

sexta-feira, 23 de maio de 2025

Regra dos 72

 

Para quem pretende investir determinado montante em regime de juros compostos, a regra dos 72 pode ser útil. Se dividirmos 72 por uma taxa de juro anual, o resultado indicar-nos-á, aproximadamente, o número de anos necessários para o capital inicial duplicar

Por exemplo, se aplicarmos 10 000 € num depósito a prazo que remunera o capital à taxa de juro anual de 3%, ao fim de 24 anos o capital acumulado será de 20 000 €. Trata-se de uma forma simples de estimar quanto tempo demorará até que o capital inicial multiplique por dois.

A regra dos 72 também pode ser utilizada para determinar a taxa de juro anual que permite duplicar o dinheiro em determinado período. Pode exemplo, se dividirmos 72 por 10 anos ficamos a saber que precisamos que um investimento remunere o capital a uma taxa de juro anual de, aproximadamente, 7,2% para que o capital inicial duplique ao fim daquele período.

Se aplicarmos a regra dos 72 à inflação, podemos saber quantos anos terão de passar até que os preços dupliquem (e que o poder de compra caia para metade). Por exemplo, se considerarmos uma taxa de inflação média de 8% ao ano, em 9 anos (72/8) perdemos metade do poder de compra inicial.

Por uma questão de preciosismo, há pessoas que utilizam o 69 ou o 70 (ou outros números próximos) em vez do 72 — em alguns casos (nomeadamente quando a taxa de juro é baixa — por exemplo, 1% ou 2%), o 69 pode dar um resultado mais aproximado. Para taxas de juro elevadas (por exemplo, 20%), números um pouco mais elevados que 72 poderão dar resultados mais próximos da realidade.

sexta-feira, 25 de abril de 2025

Mais casas para arrendar

 

O mercado de arrendamento continua a dar que falar: em época de campanha eleitoral, os partidos políticos digladiam-se na apresentação de medidas que permitam aumentar o número de casas disponíveis e diminuir o valor das rendas.

Há partidos que defendem a imposição de limites aos preços das rendas, para que mais pessoas consigam arrendar casas a preços mais acessíveis. Um aluno que estude economia no secundário sabe que a imposição de um preço inferior ao preço em equilíbrio provoca o aumento da procura e a diminuição da oferta, resultando no excesso de procura. Os tetos nas rendas não só não resolvem o problema como iriam agravá-lo. Mesmo que as rendas tivessem de descer (trata-se de uma imposição), à semelhança do que aconteceu noutros países que experimentaram esta medida, a oferta de casas para arrendar diminuiria drasticamente. No médio/longo prazo, o cenário seria ainda pior: menos construção; inquilinos a viver em casas piores (os senhorios não fariam as obras necessárias); mais inquilinos desprotegidos (mercado paralelo).

O problema da falta de casas para arrendar e o preço elevado das rendas ocorre porque a oferta é inferior à procura. Só a construção de novas casas (e a reabilitação de casas existentes) permite aumentar a oferta e diminuir os preços das rendas.  Este é um tema muito importante, porque tem um impacto elevado na qualidade de vida das pessoas, e por isso não deveria ser utilizado demagogicamente pelos partidos políticos.

domingo, 13 de abril de 2025

Dilema (ou paradoxo) de Triffin

 

Robert Triffin foi um economista que apresentou, na década de sessenta do século XX, no congresso americano, um dilema relacionado com a emissão de moeda (que funciona internacionalmente como moeda de reserva) que um país tem de fazer para gerar liquidez suficiente ao comércio internacional, endividando-se cada vez mais e, por essa via, pondo em causa a confiança na moeda. Há uma tensão constante entre o papel que uma moeda global terá de ter, assegurando a liquidez suficiente aos mercados, e a necessidade de equilibrar as contas externas do país emissor da moeda. Esta contradição ocorre porque a moeda é utilizada simultaneamente como moeda oficial de um país e é a moeda de referência no comércio internacional.

Para que haja comércio internacional, os países intervenientes necessitam de trocar as suas moedas. Para facilitar as trocas comerciais, os países podem utilizar uma moeda internacionalmente aceite, que seja da sua confiança, sendo que, atualmente, é o dólar dos Estados Unidos da América (EUA) que desempenha esse papel importante.

Imaginem que um país negoceia com 30 países. Sem a existência de uma moeda internacionalmente aceite e de confiança, os países aderentes ao comércio internacional teriam de manter grandes variedades de moedas de outros países. Para facilitar o comércio internacional, uma parte muito significativa das trocas é realizada em dólares americanos, servindo esta como moeda de reserva.   

No entanto, se houver muitos países a utilizar o dólar como moeda de troca, os EUA têm de fornecer a quantidade de moeda necessária. Um país que necessite de dólares terá de vender mais aos EUA do que importará daquele país, recebendo assim os dólares necessários para operar no comércio internacional. Se os EUA importarem, para a maioria dos países, muito mais do que exportam criam défices crescentes e veem-se forçados a optar por uma de duas soluções negativas: aumentar continuamente o seu défice comercial e financiar as trocas globais ou abdicar de défices e provocar falta de liquidez no comércio internacional.

Além disso, se um país cuja moeda é utilizada preferencialmente no comércio internacional (como os EUA) continuar com défices cada vez mais elevados, endividando-se cada vez mais, no longo prazo a sua moeda perderá a confiança e desvalorizar-se-á.

Resumindo, se os EUA optarem por manter a sua moeda como reserva global e, por isso, acumularem défices prevê-se a perda de confiança no dólar; se os EUA quiserem diminuir o défice haverá menos dólares e, por isso, faltará liquidez nos mercados e gerar-se-á instabilidade económica e financeira.

sábado, 1 de fevereiro de 2025

Jogo de soma nula

 

Em resposta às tarifas impostas pelos Estados Unidos da América (EUA) aos produtos importados do Canadá e do México, estes países anunciaram que vão fazer o mesmo relativamente aos produtos importados dos EUA. O Presidente, Donald Trump, pretende proteger a produção norte-americana, dificultando a entrada dos produtos com origem noutros países.

A ciência económica mostra que a abertura dos mercados e o correspondente aumento das trocas comerciais permitiram o aumento generalizado das exportações dos países que participam no comércio internacional e a melhoria da qualidade de vida das respetivas populações.  

Além de pôr em causa o crescimento económico mundial, a introdução de tarifas poderá traduzir-se no aumento da inflação e na respetiva diminuição da qualidade de vida dos norte-americanos, obrigando-os a pagar mais pelos produtos importados. 

quinta-feira, 16 de janeiro de 2025

Tratado dos panos e dos vinhos

 

O tratado de Methuen, também conhecido como Tratado dos Panos e Vinhos, foi assinado em 1703, entre Portugal e a Inglaterra. Aquele acordo previa que Portugal comprasse a Inglaterra tecidos têxteis, isentando-os de taxas alfandegárias. Em contrapartida, a Inglaterra comprometia-se em comprar vinhos a Portugal, reduzindo as taxas alfandegárias sobre o vinho português.

Estávamos no início da Revolução Industrial, sendo a manufatura substituída pela utilização de máquinas a vapor, que permitiam o aumento significativo da produção de têxteis.

Este acordo visava a aceleração das trocas comerciais entre os dois países, contribuindo para uma aproximação comercial (e militar). Além disso, permitiu que cada um dos países apostasse mais na produção dos bens em que era mais eficiente — a Inglaterra possuía competências na produção têxtil, enquanto Portugal tinha bons recursos e competências na produção de vinho. Este acordo teve implícito o reconhecimento mútuo dos benefícios comércio internacional, sendo que cada país se especializou na produção dos bens em que era mais eficiente — mais tarde, no século XIX, o economista David Ricardo utilizou este tratado para explicar a teoria das vantagens comparativas, que defendia a especialização dos países nos bens em que são mais eficientes. A teoria das vantagens comparativas defende que a especialização é benéfica para todos os países envolvidos no comércio internacional, dado que permite alocar melhor os recursos e produzir de forma mais eficiente os bens de que as pessoas necessitam.

Nota: Na opinião de muitos, este acordo foi muito mais benéfico para a Inglaterra do que para Portugal, dado que a indústria portuguesa sofreu bastante com a concorrência dos têxteis ingleses e o vinho exportado para Inglaterra representava valores bastante mais baixos do que as importações de tecidos ingleses.