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domingo, 4 de janeiro de 2026

O valor da moeda

A história dos últimos séculos mostra-nos que a moeda evoluiu ao longo do tempo, tendo deixado de ser representativa para ser fiduciária. Enquanto moeda representativa, as notas em circulação podiam ser trocadas por ouro ou prata. A partir do momento em que a moeda passa a ser fiduciária, as notas e moedas existentes deixam de estar associadas a mercadorias e não podem ser convertidas em ouro ou prata. Neste caso, são as instituições monetárias (Bancos Centrais) que decidem, em cada momento, qual é a quantidade de moeda em circulação. As pessoas deixam de poder trocar a moeda pelos materiais preciosos, pelo que o valor da moeda está indissociavelmente ligado à confiança no sistema.

Na Zona Euro, o Banco Central Europeu (BCE) é a instituição que supervisiona o sistema bancário dos países que utilizam o euro e o seu principal objetivo é o de manter a estabilidade dos preços. O BCE pode utilizar uma diversidade de instrumentos para alcançar o seu objetivo (estabilidade de preços), sendo que a definição e execução da política monetária contribuem decisivamente para a concretização daquele desiderato. 

Apesar de existirem discussões concetuais acerca do papel que os bancos centrais devem desempenhar nas sociedades atuais, considero que eles devem conduzir a política monetária sem interferência direta do poder político. Muitos consideram que os Bancos Centrais devem estar na dependência dos governos e por isso devem atuar em conforme as estratégias políticas, representando mais um instrumento ao dispor dos políticos. Ainda que tenham diferentes graus de autonomia, a maioria dos países desenvolvidos tem Bancos Centrais autónomos. A política monetária, por ser muito importante, suscetível de gerar desconfianças e levar ao aumento desenfreado dos preços, que prejudica enormemente as populações, carece de previsibilidade e de independência perante o poder político.

Os dados históricos comprovam que os países com Bancos Centrais mais dependentes do poder político tendem a apresentar taxas de inflação mais elevadas, principalmente nos países com instituições mais frágeis. Pelo contrário, os países com Bancos Centrais independentes apresentam taxas de inflação mais baixas. 

Nos últimos dias, os comerciantes iranianos iniciaram um conjunto de manifestações, que posteriormente se alastraram a outros setores da população, em protesto contra o aumento desenfreado dos preços dos bens.

Uma das principais causas da inflação iraniana está relacionada com a emissão desenfreada de moeda que o Banco Central tem vindo a fazer. Em vez de tomar medidas que permitam conter e baixar a inflação, o Banco Central do Irão, que depende do governo e por isso age em conformidade, tem emitido moeda para financiar o excesso de gastos públicos.

A independência dos Bancos Centrais é um dos pressupostos mais importantes para garantir a tomada de decisões técnicas que permitam controlar a inflação. Se os Bancos Centrais estiverem na dependência direta dos governos, o controlo da inflação é mais difícil, dado que eles terão de responder aos anseios dos políticos.   


sexta-feira, 27 de junho de 2025

Armas nucleares do Irão

 

Não sou especialista nem tenho qualificações na área, mas gostaria de abordar o tema das armas nucleares do Irão sob um ponto de vista que não tenho visto nas abordagens feitas pelos órgãos de comunicação social.

Depois de um período em que alguns países começaram a desenvolver armas nucleares (as bombas nucleares foram usadas pela primeira vez na Segunda Guerra Mundial — Hiroshima e Nagasaki), pondo em risco a própria sobrevivência humana, foi assinado um tratado, designado de tratado de não proliferação de armas nucleares. Os países que aderiram ao tratado comprometem-se a não desenvolver armas nucleares, sendo que os já têm armas nucleares responsabilizam-se por defender os restantes caso sejam atacados por um dos que têm armas nucleares. Atualmente, o tratado de não proliferação nuclear está assinado pela esmagadora maioria dos países mundiais (incluindo o Irão); são poucos os países que não assinaram o tratado de não proliferação nuclear — como, por exemplo, Israel, Índia, Paquistão ou Coreia do Norte (que assinou, mas saiu mais tarde). 

Os países que assinaram o tratado estão sujeitos a frequentes ações de fiscalização por parte da Agência Internacional de Energia Atómica (AIEA). Nessas visitas ao Irão, a AIEA já encontrou várias irregularidades: valores de urânio acima do permitido; não explicação da origem de vestígios de urânio encontrados em locais que não tinham sido declarados; etc. Estes e outros factos implicam que o Irão não está a cumprir o tratado e que há situações pouco claras e mal explicadas no programa nuclear do Irão.

O Irão pode sair do tratado (como fez a Coreia do Norte) e seguir o seu caminho desenvolvendo o programa nuclear que entender. Provavelmente, no dia em que isso acontecer, outros países da região (por exemplo, Arábia Saudita, Turquia ou Egipto) irão fazer o mesmo e desenvolver o seu programa nuclear. O que me parece estar a acontecer é que o Irão quer transmitir a ideia de que não pretende desenvolver armas nucleares (por isso não sai do tratado), mas simultaneamente sonega informação importante à Agência Internacional de Energia Atómica.

Se o Irão vier a ter armas nucleares, o Médio Oriente (e o Mundo) ficará ainda mais perigoso, visto que se trata de uma região muito instável e com conflitos constantes. Lembremo-nos de que em Teerão há um relógio que marca o fim do Estado de Israel (o relógio faz uma contagem decrescente para o fim do Estado de Israel, no ano de 2040) — tendo em conta as notícias recentes, Israel terá destruído este relógio num dos últimos ataques feitos à capital do Irão.