O Boletim Económico de dezembro, do Banco de
Portugal, faz uma análise ao mercado de habitação em Portugal, identificando os
principais fatores e contribuindo com algumas explicações para a falta de casas
para habitação.
O aumento dos preços da habitação tem origem,
como se sabe, no aumento mais do que proporcional da procura relativamente à
oferta. Do lado da procura, há vários fatores que contribuem para o seu
aumento, destacando-se o aumento da população e a diminuição da dimensão média
das famílias. Segundo o boletim de dezembro do Banco de Portugal, entre 1981 e
2021, o fator que mais contribuiu para o aumento do número de famílias foi a
sua dimensão, que reduziu expressivamente no período. Entre 2021 e 2024, o saldo
migratório foi o principal determinante do aumento do número de famílias.
Do lado da oferta, verifica-se que o número de alojamentos
familiares disponíveis para habitar diminuiu expressivamente nos últimos 15
anos. Entre 1981 e 2011, a variação média anual do número de alojamentos
familiares era de cerca de 82 mil; entre 2011 e 2021, a média foi de cerca de
11 mil. Entre 2021 e 2024, a variação média anual do número de alojamentos locais
aumentou, para cerca de 22 mil, mas ainda muito abaixo das necessidades e dos
valores observados nas duas últimas décadas do século XX e na primeira década
do século XXI. O relatório do Banco de Portugal destaca, ainda, uma percentagem
elevada de alojamentos vagos, sendo que as casas vazias estão localizadas maioritariamente
nos concelhos com menor pressão da procura — em Lisboa e no Porto, por exemplo,
as casas vazias representam uma percentagem baixa. Apesar de o boletim não
analisar esta situação, estou convicto de que muitas das casas vazias não estão
em condições de serem habitadas. Na zona onde resido, muitas casas estão vazias
porque os antigos proprietários, maioritariamente idosos, morreram e os seus
filhos não estão disponíveis para morar nas mesmas condições dos pais.
Os números referidos, que são corroborados pela
análise do boletim de dezembro, mostram que até 2011 a variação do número de
alojamentos foi superior à variação do número de famílias, tendo-se invertido
esta situação a partir de 2011 até à atualidade. O excesso de procura
relativamente à oferta existente tem pressionado a subida dos preços das casas
e das rendas, pelo que os preços apenas poderão baixar (ou aumentar a um ritmo inferior)
quando a oferta crescer a um ritmo significativamente superior.