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quarta-feira, 7 de outubro de 2026

A arte do nada

 

Vivemos tempos muito tumultuosos, em que quase tudo o que é dito pelos políticos e analisado de forma incessante pelos comentadores apenas serve o mexerico e a inutilidade. Tudo é espetáculo, para ser consumido num curto período, mesmo provindo dos que têm o dever de olhar para os temas de forma séria, racional e ponderada.

Não existe planeamento estratégico nem antecipação dos problemas. Ninguém é capaz, por incompetência ou motivos eleitorais/ideológicos, de antecipar os efeitos das medidas que sugere ou executa. Muitas das situações a que assistimos atualmente, em Portugal e noutros países europeus, eram previsíveis há muito. Aliás, muitos desses problemas têm origem em medidas tomadas no passado.

Os debates e comentários promovidos pelos meios de comunicação social, muitas vezes enviesados ou descontextualizados, seguem a mesma bitola: apenas promovem espetáculo, não identificando as causas, os responsáveis, nem as soluções.

Lamento dizer, mas os problemas não serão resolvidos se as verdadeiras causas continuarem a ser ignoradas. O espetáculo não resolve problemas; apenas os esconde, agravando-os.

terça-feira, 12 de agosto de 2025

Implicatura

 

Muitas vezes, o falante utiliza determinadas palavras pretendendo dar-lhes um sentido diferente do que está explícito. Ademais, por variados fatores (falta de tempo, desconhecimento do verdadeiro sentido das palavras, regionalismos, entre outras causas), nem sempre as palavras utilizadas são as mais adequadas.

Na oralidade, a utilização de palavras inadequadas ou com sentido implícito para além do sentido literal é mais frequente, dado que a necessidade de escolher e articular as palavras num período curto é mais difícil e, por isso, a probabilidade de errar é maior.  

Na comunicação social vive-se um momento muito especial. Os políticos, comentadores e analistas que, todos os dias, se acotovelam mutuamente para conseguirem passar a sua mensagem, entretêm-se a discutir uma palavra ou uma frase propalada por um dos intervenientes (ou por terceiros), acusando-o de um crime qualquer porque o sentido literal da mesma difere do sentido que o autor lhe atribuiu ou quis atribuir. Pior, depois de o autor explicar o sentido desejado, o oponente insiste em acusar o outro falante porque o sentido implícito da palavra ou frase não é (ou não se pretende que seja) aquele. Em vez de se discutir os assuntos seriamente, o tempo de antena é passado a arranjar factos alternativos e a acusar os outros de posições que, muitas vezes, são erradas.

sábado, 1 de agosto de 2020

Escalas de gráficos


A televisão púbica espanhola (RTVE) apresentou um conjunto de gráficos para mostrar a evolução negativa do PIB de 4 países europeus: Espanha, França, Alemanha e Itália. Como podemos observar no gráfico apresentado a seguir, a RTVE utilizou escalas diferentes para cada país, dando a sensação de que a queda do PIB espanhol é semelhante à queda verificada na Alemanha.

Infelizmente, não se trata de um caso isolado (tenho verificado este tipo de situações em vários meios de comunicação social) — não sei se é apenas ignorância ou se o objetivo é o de transmitir uma ideia diferente da real. De qualquer das formas, a situação é tão grave que um mero erro é inadmissível num meio de comunicação social que pretenda ser transparente.

Depois de muitas críticas, a RTVE corrigiu o erro.   Se compararmos os dois gráficos (o de cima e o que apresento a seguir), facilmente concluímos que as diferenças são abissais: no primeiro, a queda do PIB espanhol é semelhante à queda do PIB alemão e mais baixa que a queda do PIB francês e italiano; no gráfico de baixo, a Espanha é claramente o país mais penalizado.