terça-feira, 1 de julho de 2025

Suposições

 

Nos últimos dias temos visto algumas notícias sobre a suposta fragilidade da economia russa. Desde que a Rússia invadiu a Ucrânia, e perante muitas adversidades (por exemplo, sanções impostas por outros países), vários analistas afirmam convictamente que a economia russa é pujante e como está baseada na indústria da guerra não será afetada.

Apesar de a Rússia ter diversificado os seus mercados de petróleo e gás vendendo bastante mais para alguns países, conseguindo assim reduzir as consequências das sanções impostas, não acredito que um período tão longo de guerra não provoque danos significativos na economia russa. Como em tudo na Rússia, os números apresentados poderão esconder a realidade e só mais tarde é que poderemos conhecer a verdadeira situação.  

sexta-feira, 27 de junho de 2025

Armas nucleares do Irão

 

Não sou especialista nem tenho qualificações na área, mas gostaria de abordar o tema das armas nucleares do Irão sob um ponto de vista que não tenho visto nas abordagens feitas pelos órgãos de comunicação social.

Depois de um período em que alguns países começaram a desenvolver armas nucleares (as bombas nucleares foram usadas pela primeira vez na Segunda Guerra Mundial — Hiroshima e Nagasaki), pondo em risco a própria sobrevivência humana, foi assinado um tratado, designado de tratado de não proliferação de armas nucleares. Os países que aderiram ao tratado comprometem-se a não desenvolver armas nucleares, sendo que os já têm armas nucleares responsabilizam-se por defender os restantes caso sejam atacados por um dos que têm armas nucleares. Atualmente, o tratado de não proliferação nuclear está assinado pela esmagadora maioria dos países mundiais (incluindo o Irão); são poucos os países que não assinaram o tratado de não proliferação nuclear — como, por exemplo, Israel, Índia, Paquistão ou Coreia do Norte (que assinou, mas saiu mais tarde). 

Os países que assinaram o tratado estão sujeitos a frequentes ações de fiscalização por parte da Agência Internacional de Energia Atómica (AIEA). Nessas visitas ao Irão, a AIEA já encontrou várias irregularidades: valores de urânio acima do permitido; não explicação da origem de vestígios de urânio encontrados em locais que não tinham sido declarados; etc. Estes e outros factos implicam que o Irão não está a cumprir o tratado e que há situações pouco claras e mal explicadas no programa nuclear do Irão.

O Irão pode sair do tratado (como fez a Coreia do Norte) e seguir o seu caminho desenvolvendo o programa nuclear que entender. Provavelmente, no dia em que isso acontecer, outros países da região (por exemplo, Arábia Saudita, Turquia ou Egipto) irão fazer o mesmo e desenvolver o seu programa nuclear. O que me parece estar a acontecer é que o Irão quer transmitir a ideia de que não pretende desenvolver armas nucleares (por isso não sai do tratado), mas simultaneamente sonega informação importante à Agência Internacional de Energia Atómica.

Se o Irão vier a ter armas nucleares, o Médio Oriente (e o Mundo) ficará ainda mais perigoso, visto que se trata de uma região muito instável e com conflitos constantes. Lembremo-nos de que em Teerão há um relógio que marca o fim do Estado de Israel (o relógio faz uma contagem decrescente para o fim do Estado de Israel, no ano de 2040) — tendo em conta as notícias recentes, Israel terá destruído este relógio num dos últimos ataques feitos à capital do Irão.

sexta-feira, 23 de maio de 2025

Regra dos 72

 

Para quem pretende investir determinado montante em regime de juros compostos, a regra dos 72 pode ser útil. Se dividirmos 72 por uma taxa de juro anual, o resultado indicar-nos-á, aproximadamente, o número de anos necessários para o capital inicial duplicar

Por exemplo, se aplicarmos 10 000 € num depósito a prazo que remunera o capital à taxa de juro anual de 3%, ao fim de 24 anos o capital acumulado será de 20 000 €. Trata-se de uma forma simples de estimar quanto tempo demorará até que o capital inicial multiplique por dois.

A regra dos 72 também pode ser utilizada para determinar a taxa de juro anual que permite duplicar o dinheiro em determinado período. Pode exemplo, se dividirmos 72 por 10 anos ficamos a saber que precisamos que um investimento remunere o capital a uma taxa de juro anual de, aproximadamente, 7,2% para que o capital inicial duplique ao fim daquele período.

Se aplicarmos a regra dos 72 à inflação, podemos saber quantos anos terão de passar até que os preços dupliquem (e que o poder de compra caia para metade). Por exemplo, se considerarmos uma taxa de inflação média de 8% ao ano, em 9 anos (72/8) perdemos metade do poder de compra inicial.

Por uma questão de preciosismo, há pessoas que utilizam o 69 ou o 70 (ou outros números próximos) em vez do 72 — em alguns casos (nomeadamente quando a taxa de juro é baixa — por exemplo, 1% ou 2%), o 69 pode dar um resultado mais aproximado. Para taxas de juro elevadas (por exemplo, 20%), números um pouco mais elevados que 72 poderão dar resultados mais próximos da realidade.

sexta-feira, 25 de abril de 2025

Mais casas para arrendar

 

O mercado de arrendamento continua a dar que falar: em época de campanha eleitoral, os partidos políticos digladiam-se na apresentação de medidas que permitam aumentar o número de casas disponíveis e diminuir o valor das rendas.

Há partidos que defendem a imposição de limites aos preços das rendas, para que mais pessoas consigam arrendar casas a preços mais acessíveis. Um aluno que estude economia no secundário sabe que a imposição de um preço inferior ao preço em equilíbrio provoca o aumento da procura e a diminuição da oferta, resultando no excesso de procura. Os tetos nas rendas não só não resolvem o problema como iriam agravá-lo. Mesmo que as rendas tivessem de descer (trata-se de uma imposição), à semelhança do que aconteceu noutros países que experimentaram esta medida, a oferta de casas para arrendar diminuiria drasticamente. No médio/longo prazo, o cenário seria ainda pior: menos construção; inquilinos a viver em casas piores (os senhorios não fariam as obras necessárias); mais inquilinos desprotegidos (mercado paralelo).

O problema da falta de casas para arrendar e o preço elevado das rendas ocorre porque a oferta é inferior à procura. Só a construção de novas casas (e a reabilitação de casas existentes) permite aumentar a oferta e diminuir os preços das rendas.  Este é um tema muito importante, porque tem um impacto elevado na qualidade de vida das pessoas, e por isso não deveria ser utilizado demagogicamente pelos partidos políticos.

domingo, 13 de abril de 2025

Dilema (ou paradoxo) de Triffin

 

Robert Triffin foi um economista que apresentou, na década de sessenta do século XX, no congresso americano, um dilema relacionado com a emissão de moeda (que funciona internacionalmente como moeda de reserva) que um país tem de fazer para gerar liquidez suficiente ao comércio internacional, endividando-se cada vez mais e, por essa via, pondo em causa a confiança na moeda. Há uma tensão constante entre o papel que uma moeda global terá de ter, assegurando a liquidez suficiente aos mercados, e a necessidade de equilibrar as contas externas do país emissor da moeda. Esta contradição ocorre porque a moeda é utilizada simultaneamente como moeda oficial de um país e é a moeda de referência no comércio internacional.

Para que haja comércio internacional, os países intervenientes necessitam de trocar as suas moedas. Para facilitar as trocas comerciais, os países podem utilizar uma moeda internacionalmente aceite, que seja da sua confiança, sendo que, atualmente, é o dólar dos Estados Unidos da América (EUA) que desempenha esse papel importante.

Imaginem que um país negoceia com 30 países. Sem a existência de uma moeda internacionalmente aceite e de confiança, os países aderentes ao comércio internacional teriam de manter grandes variedades de moedas de outros países. Para facilitar o comércio internacional, uma parte muito significativa das trocas é realizada em dólares americanos, servindo esta como moeda de reserva.   

No entanto, se houver muitos países a utilizar o dólar como moeda de troca, os EUA têm de fornecer a quantidade de moeda necessária. Um país que necessite de dólares terá de vender mais aos EUA do que importará daquele país, recebendo assim os dólares necessários para operar no comércio internacional. Se os EUA importarem, para a maioria dos países, muito mais do que exportam criam défices crescentes e veem-se forçados a optar por uma de duas soluções negativas: aumentar continuamente o seu défice comercial e financiar as trocas globais ou abdicar de défices e provocar falta de liquidez no comércio internacional.

Além disso, se um país cuja moeda é utilizada preferencialmente no comércio internacional (como os EUA) continuar com défices cada vez mais elevados, endividando-se cada vez mais, no longo prazo a sua moeda perderá a confiança e desvalorizar-se-á.

Resumindo, se os EUA optarem por manter a sua moeda como reserva global e, por isso, acumularem défices prevê-se a perda de confiança no dólar; se os EUA quiserem diminuir o défice haverá menos dólares e, por isso, faltará liquidez nos mercados e gerar-se-á instabilidade económica e financeira.

sábado, 1 de fevereiro de 2025

Jogo de soma nula

 

Em resposta às tarifas impostas pelos Estados Unidos da América (EUA) aos produtos importados do Canadá e do México, estes países anunciaram que vão fazer o mesmo relativamente aos produtos importados dos EUA. O Presidente, Donald Trump, pretende proteger a produção norte-americana, dificultando a entrada dos produtos com origem noutros países.

A ciência económica mostra que a abertura dos mercados e o correspondente aumento das trocas comerciais permitiram o aumento generalizado das exportações dos países que participam no comércio internacional e a melhoria da qualidade de vida das respetivas populações.  

Além de pôr em causa o crescimento económico mundial, a introdução de tarifas poderá traduzir-se no aumento da inflação e na respetiva diminuição da qualidade de vida dos norte-americanos, obrigando-os a pagar mais pelos produtos importados. 

quinta-feira, 16 de janeiro de 2025

Tratado dos panos e dos vinhos

 

O tratado de Methuen, também conhecido como Tratado dos Panos e Vinhos, foi assinado em 1703, entre Portugal e a Inglaterra. Aquele acordo previa que Portugal comprasse a Inglaterra tecidos têxteis, isentando-os de taxas alfandegárias. Em contrapartida, a Inglaterra comprometia-se em comprar vinhos a Portugal, reduzindo as taxas alfandegárias sobre o vinho português.

Estávamos no início da Revolução Industrial, sendo a manufatura substituída pela utilização de máquinas a vapor, que permitiam o aumento significativo da produção de têxteis.

Este acordo visava a aceleração das trocas comerciais entre os dois países, contribuindo para uma aproximação comercial (e militar). Além disso, permitiu que cada um dos países apostasse mais na produção dos bens em que era mais eficiente — a Inglaterra possuía competências na produção têxtil, enquanto Portugal tinha bons recursos e competências na produção de vinho. Este acordo teve implícito o reconhecimento mútuo dos benefícios comércio internacional, sendo que cada país se especializou na produção dos bens em que era mais eficiente — mais tarde, no século XIX, o economista David Ricardo utilizou este tratado para explicar a teoria das vantagens comparativas, que defendia a especialização dos países nos bens em que são mais eficientes. A teoria das vantagens comparativas defende que a especialização é benéfica para todos os países envolvidos no comércio internacional, dado que permite alocar melhor os recursos e produzir de forma mais eficiente os bens de que as pessoas necessitam.

Nota: Na opinião de muitos, este acordo foi muito mais benéfico para a Inglaterra do que para Portugal, dado que a indústria portuguesa sofreu bastante com a concorrência dos têxteis ingleses e o vinho exportado para Inglaterra representava valores bastante mais baixos do que as importações de tecidos ingleses.