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quarta-feira, 14 de outubro de 2026

Valor acrescentado

 

Nos meios de comunicação social, ouvimos muitas vezes economistas, políticos e comentadores diagnosticarem que, para crescer, a economia portuguesa necessita de apostar em áreas de negócio com mais valor acrescentado. Sendo verdadeira a premissa, vale a pena esclarecer o que ela significa e o que implica esta opção.

O valor acrescentado de uma empresa representa o valor que ela consegue acrescentar aos bens e serviços que utiliza como matérias-primas e outros materiais utilizados no processo produtivo. O valor acrescentado é calculado através da diferença entre a produção e os consumos intermédios (bens utilizados na produção, mas produzidos por outras empresas).

O Produto Interno Bruto (PIB) de um país pode ser calculado pelo somatório dos valores acrescentados de todas as empresas que integram a respetiva atividade económica, sendo necessário acrescentar ainda os impostos sobre produtos e subtrair os subsídios aos produtos. Nas contas de um país, o valor acrescentado de uma empresa mede o seu contributo para aquela economia.

É através do valor acrescentado que as empresas remuneram os agentes económicos que participam no processo produtivo (trabalhadores, sócios/acionistas, proprietários, etc.), pelo que o aumento do valor acrescentado de uma empresa permite pagar melhores salários e distribuir mais lucros aos seus proprietários. Ou seja, é o valor acrescentado gerado por uma empresa que permite distribuir mais rendimentos pelos vários intervenientes.

Imagine-se uma empresa que, no fabrico de sapatos, utiliza couro, solas e diversos materiais (cola, linhas, cordões…) que adquire a outros fornecedores. Por cada par de sapatos produzido, a empresa gasta 30 € na compra daqueles materiais, conseguindo vendê-los a 70 € a uma loja de comércio situada em Lisboa. A empresa que fabrica os sapatos contribui com 40 € para a riqueza de Portugal. A loja de comércio vende os mesmos sapatos ao cliente final por 100 €, dos quais 40 € correspondem ao valor acrescentado.

Se a empresa que fabrica os sapatos os conseguir vender a 110 € (em vez dos 70 €), então o seu contributo para a riqueza do país aumenta para 80 €. Para conseguir vender os sapatos mais caros, e assim contribuir mais para a riqueza do país, a empresa pode utilizar algumas das seguintes estratégias: contratar designers que lhe permitam criar sapatos mais criativos e originais; apostar numa marca própria e no seu reconhecimento, levando os clientes a pagarem mais pelos sapatos; apostar num nicho de mercado que permita vender os sapatos mais caros; investir em inovação, fabricando sapatos mais confortáveis ou com outras características valorizadas pelos consumidores (impermeabilidade, durabilidade, entre outras); apostar na personalização dos seus sapatos, criando sapatos adaptados aos desejos e necessidades de cada cliente.

sexta-feira, 27 de março de 2026

Crescimento económico e desenvolvimento

 

Apesar de estarem relacionados, crescimento económico e desenvolvimento são dois conceitos diferentes. O crescimento económico refere-se ao aumento da produção e, consequentemente, da riqueza gerada. O Produto Interno Bruto (PIB) e o Produto Nacional Bruto (PNB) são dois dos indicadores mais utilizados para medir a riqueza gerada pelos países.

O crescimento económico deve contribuir para que as populações vivam melhor. No entanto, nem sempre os recursos são aplicados da melhor forma, pelo que o aumento da produção de bens e serviços pode não se traduzir na melhoria da qualidade de vida das populações. O desenvolvimento está relacionado com o processo de melhoria da qualidade de vida das populações. Para medir o grau de desenvolvimento de um país são utilizados diversos indicadores, alguns simples (taxa de natalidade, taxa de analfabetismo, taxa de mortalidade infantil, etc.), outros compostos (Índice de Desenvolvimento Humano…). 

O crescimento económico e o desenvolvimento são dois conceitos interligados, dado que a melhoria dos indicadores de desenvolvimento carece de recursos, que apenas podem ser obtidos se houver crescimento económico. Apesar de o crescimento económico nem sempre se traduzir em desenvolvimento, quanto maior e mais sustentável for o crescimento económico, maior é a possibilidade de os indicadores que concorrem para o desenvolvimento (educação, saúde, demografia, etc.) serem melhores. Se é verdade que nem sempre o crescimento económico se traduz numa melhoria proporcional nos indicadores de desenvolvimento, não é possível alcançar elevados níveis de desenvolvimento sem o aumento sustentável do crescimento (atual ou passado). Mesmo que seja possível, em períodos curtos, apresentar uma melhoria geral de alguns indicadores de desenvolvimento, só um crescimento económico robusto permite que aquele seja sustentável. Ou seja, o crescimento económico é uma condição necessária, mas não suficiente, para haver desenvolvimento.

sexta-feira, 7 de agosto de 2020

Os números também enganam...

 

Nas últimas semanas tivemos a oportunidade de conhecer os números do Produto Interno Bruto (PIB) de vários países. Ao olhar para os números divulgados na televisão, chamou-me atenção a diminuição do PIB americano: 32,9%. A maior parte dos órgãos de comunicação portugueses limitou-se a lançar os números sem os explicar.

Em Portugal, no segundo trimestre, a economia recuou 16,5% em comparação com o mesmo período do ano anterior; 14,1% se compararmos com os 3 primeiros meses de 2020.  

No entanto, os EUA não utilizam a mesma metodologia que é utilizada no nosso continente, razão pela qual os 32,9% não devem comparados com os dados de Portugal e/ou dos restantes países da União Europeia. Aquele valor refere-se à evolução da economia no segundo trimestre numa base anualizada (ou seja, os 32,9% correspondem à diminuição do PIB anual no pressuposto de que nos restantes trimestres a economia tenha a mesma evolução, o que é pouco provável). Nos países na União Europeia, os dados indicam a variação efetiva do PIB em comparação com o mesmo período do ano anterior (variação homóloga) ou com os 3 meses anteriores (variação em cadeia).

Muito pior do que transmitir os números sem explicar o respetivo enquadramento (o que fez a maioria dos canais de televisões portugueses) é tentar comparar os dados portugueses (seja os valores homólogos ou em cadeia) com os 32,9% dos EUA. Quem quiser comparar os dados de qualquer país da União Europeia com os EUA pode fazê-lo utilizando os 9,5% relativos à diminuição do PIB norte-americano em relação ao trimestre anterior (em cadeia).