sábado, 9 de agosto de 2025

Nem para cabaneiros servem

 

O meu pai utilizava muitas vezes a palavra “cabaneiro”, quando pretendia referir-se a alguém que não percebe muito da arte agrícola. O meu pai sempre trabalhou na agricultura, sendo um pequeno produtor de gado, vinho, milho, feijão e batatas, entre outros, pelo que tinha conhecimento das melhores técnicas utilizadas na produção de bens agrícolas.

O termo cabaneiro pode ter vários significados. Entre outras aceções, o cabaneiro é uma pessoa pobre que vive em cabana; também pode ser um trabalhador rural ou um jornaleiro. O meu pai utilizava o termo cabaneiro pejorativamente, pretendendo mostrar que se trata de alguém que, não sendo proprietário nem lavrador (apesar de, muitas vezes, ajudar outros a trabalhar a terra, necessitava de alguém mais experimentado que o orientasse), percebia pouco da arte.

Atualmente, os órgãos de comunicação social estão repletos de pessoas que comentam tudo com aparente propriedade. Na verdade, muitas vezes, trata-se de pessoas pouco rigorosas nos assuntos que tratam e desprovidas de vergonha.

domingo, 3 de agosto de 2025

Contias

 

Conforme o dicionário Priberam da Língua Portuguesa, contia é a “Retribuição dada pelo monarca a alguns dos que o serviam no paço ou na guerra.”

Em Portugal, nos séculos XIV e XV, havia vassalos a receber um rendimento da Coroa, em dinheiro ou em espécie, que podia ser fixo ou em determinados momentos (por exemplo, no casamento). As contias entregues eram a contrapartida dos serviços prestados ou a prestar ao Rei. Em muitos casos, os vassalos eram obrigados a possuir, por exemplo, determinado número de cavalos ou armas, para poderem ser usados na proteção do reino sempre que fosse necessário.

domingo, 13 de julho de 2025

Leis do Milho

 

Agora que o debate sobre a imposição de tarifas aos bens importados continua na ordem do dia, vale a pena relembrar as Leis do Milho, executadas na Inglaterra no século XIX. Naquela altura, depois das guerras napoleónicas, para proteger os seus agricultores, a Inglaterra introduziu tarifas ao milho importado.

À semelhança do que acontece atualmente, a introdução de tarifas aos bens importados gerou enorme controvérsia. Os defensores das tarifas argumentavam ser necessário proteger os produtores locais de milho e que o país deveria tornar-se autossuficiente. Do lado oposto, criticava-se o encarecimento do milho (que penalizava de forma mais severa os mais pobres) e o prejuízo causado no comércio internacional. David Ricardo foi um dos que mais criticaram as Leis do Milho, por considerar que o comércio internacional trazia mais benefícios do que o protecionismo comercial.

Já naquela altura, à semelhança do que acontece atualmente, a introdução de tarifas aos bens importados, visando incentivar a produção interna e auxiliar as empresas nacionais, é tema muito controverso.

quinta-feira, 3 de julho de 2025

Lei de Benford

 

A título de exemplo, imagine que decide consultar as populações de todos os países mundiais, ou de todas as freguesias portuguesas, e verificar qual é o primeiro algarismo que aparece mais vezes. Em princípio, poderá pensar que todos os algarismos, entre 1 e 9, têm igual probabilidade de aparecer (11,11%).

A lei de Benford diz-nos que a probabilidade de o primeiro algarismo ser 1 é maior do que ser o 2; e a probabilidade de este ser o primeiro algarismo é maior do que a probabilidade de ser 3, a assim sucessivamente. As diferenças entre a probabilidade de aparecer determinado algarismo e o algarismo seguinte são significativas — a probabilidade de aparecer o 1 é cerca de 30%, enquanto a probabilidade de encontrar o algarismo 2 é cerca de 18%.

Apesar de, aparentemente, parecer contraintuitiva, a lei de Benford está presente em muitas situações do quotidiano. Esta lei é muito importante e pode ser usada em muitas áreas, como, por exemplo, em auditoria e na identificação de fraudes financeiras ou fiscais. Se, numa dada declaração fiscal houver discrepância entre os dados declarados e a lei de Benford, pode ser um indício de que algo não está correto.

No entanto, convém ressalvar que a lei de Benford aplica-se mais eficazmente a dados que têm várias ordens de magnitude (por exemplo, números de conta construídos sequencialmente à medida que surgem novos clientes) e não se aplica quando há intervenção humana na atribuição dos números, quando há restrições no conjunto de dados (por exemplo, se os números de telemóvel iniciam todos pelo algarismo 9) ou quando os dados são gerados de forma aleatória (por exemplo, no lançamento de dados ou nos números da lotaria).    

Há uma série transmitida pela Netflix, a Era dos Dados, que mostra um conjunto de situações em que se aplica a lei de Benford.

terça-feira, 1 de julho de 2025

Suposições

 

Nos últimos dias temos visto algumas notícias sobre a suposta fragilidade da economia russa. Desde que a Rússia invadiu a Ucrânia, e perante muitas adversidades (por exemplo, sanções impostas por outros países), vários analistas afirmam convictamente que a economia russa é pujante e como está baseada na indústria da guerra não será afetada.

Apesar de a Rússia ter diversificado os seus mercados de petróleo e gás vendendo bastante mais para alguns países, conseguindo assim reduzir as consequências das sanções impostas, não acredito que um período tão longo de guerra não provoque danos significativos na economia russa. Como em tudo na Rússia, os números apresentados poderão esconder a realidade e só mais tarde é que poderemos conhecer a verdadeira situação.  

sexta-feira, 27 de junho de 2025

Armas nucleares do Irão

 

Não sou especialista nem tenho qualificações na área, mas gostaria de abordar o tema das armas nucleares do Irão sob um ponto de vista que não tenho visto nas abordagens feitas pelos órgãos de comunicação social.

Depois de um período em que alguns países começaram a desenvolver armas nucleares (as bombas nucleares foram usadas pela primeira vez na Segunda Guerra Mundial — Hiroshima e Nagasaki), pondo em risco a própria sobrevivência humana, foi assinado um tratado, designado de tratado de não proliferação de armas nucleares. Os países que aderiram ao tratado comprometem-se a não desenvolver armas nucleares, sendo que os já têm armas nucleares responsabilizam-se por defender os restantes caso sejam atacados por um dos que têm armas nucleares. Atualmente, o tratado de não proliferação nuclear está assinado pela esmagadora maioria dos países mundiais (incluindo o Irão); são poucos os países que não assinaram o tratado de não proliferação nuclear — como, por exemplo, Israel, Índia, Paquistão ou Coreia do Norte (que assinou, mas saiu mais tarde). 

Os países que assinaram o tratado estão sujeitos a frequentes ações de fiscalização por parte da Agência Internacional de Energia Atómica (AIEA). Nessas visitas ao Irão, a AIEA já encontrou várias irregularidades: valores de urânio acima do permitido; não explicação da origem de vestígios de urânio encontrados em locais que não tinham sido declarados; etc. Estes e outros factos implicam que o Irão não está a cumprir o tratado e que há situações pouco claras e mal explicadas no programa nuclear do Irão.

O Irão pode sair do tratado (como fez a Coreia do Norte) e seguir o seu caminho desenvolvendo o programa nuclear que entender. Provavelmente, no dia em que isso acontecer, outros países da região (por exemplo, Arábia Saudita, Turquia ou Egipto) irão fazer o mesmo e desenvolver o seu programa nuclear. O que me parece estar a acontecer é que o Irão quer transmitir a ideia de que não pretende desenvolver armas nucleares (por isso não sai do tratado), mas simultaneamente sonega informação importante à Agência Internacional de Energia Atómica.

Se o Irão vier a ter armas nucleares, o Médio Oriente (e o Mundo) ficará ainda mais perigoso, visto que se trata de uma região muito instável e com conflitos constantes. Lembremo-nos de que em Teerão há um relógio que marca o fim do Estado de Israel (o relógio faz uma contagem decrescente para o fim do Estado de Israel, no ano de 2040) — tendo em conta as notícias recentes, Israel terá destruído este relógio num dos últimos ataques feitos à capital do Irão.

sexta-feira, 23 de maio de 2025

Regra dos 72

 

Para quem pretende investir determinado montante em regime de juros compostos, a regra dos 72 pode ser útil. Se dividirmos 72 por uma taxa de juro anual, o resultado indicar-nos-á, aproximadamente, o número de anos necessários para o capital inicial duplicar

Por exemplo, se aplicarmos 10 000 € num depósito a prazo que remunera o capital à taxa de juro anual de 3%, ao fim de 24 anos o capital acumulado será de 20 000 €. Trata-se de uma forma simples de estimar quanto tempo demorará até que o capital inicial multiplique por dois.

A regra dos 72 também pode ser utilizada para determinar a taxa de juro anual que permite duplicar o dinheiro em determinado período. Pode exemplo, se dividirmos 72 por 10 anos ficamos a saber que precisamos que um investimento remunere o capital a uma taxa de juro anual de, aproximadamente, 7,2% para que o capital inicial duplique ao fim daquele período.

Se aplicarmos a regra dos 72 à inflação, podemos saber quantos anos terão de passar até que os preços dupliquem (e que o poder de compra caia para metade). Por exemplo, se considerarmos uma taxa de inflação média de 8% ao ano, em 9 anos (72/8) perdemos metade do poder de compra inicial.

Por uma questão de preciosismo, há pessoas que utilizam o 69 ou o 70 (ou outros números próximos) em vez do 72 — em alguns casos (nomeadamente quando a taxa de juro é baixa — por exemplo, 1% ou 2%), o 69 pode dar um resultado mais aproximado. Para taxas de juro elevadas (por exemplo, 20%), números um pouco mais elevados que 72 poderão dar resultados mais próximos da realidade.